Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.
Cora Coralina (Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas)
Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985), foi uma das mais importantes escritoras brasileiras. Nascida na Cidade de Goiás, ela é conhecida por sua escrita simples, poética e profundamente enraizada no cotidiano e na cultura regional. Uma mulher que começou a publicar seus livros na velhice, após uma vida dedicada à família e à doçaria, Cora Coralina é um exemplo de persistência, sabedoria e sensibilidade, cujas obras celebram a vida, a humanidade e a beleza nas pequenas coisas. Seu lirismo é impregnado da história que viveu, transformando experiências pessoais em universais.


A citação de Cora Coralina nos convida a uma profunda introspecção sobre a natureza de nossos próprios “defeitos”. Em uma sociedade que incessantemente busca a perfeição e a correção de falhas, a poetisa goiana nos adverte sobre o perigo de uma autocrítica excessiva e da extirpação de traços que, à primeira vista, parecem ser imperfeições. Ela sugere que aquilo que consideramos um defeito pode ser, na verdade, um pilar invisível que sustenta nossa estrutura mais profunda, nossa singularidade e, em última instância, nossa inteireza.
Imagine, por um instante, um edifício. Cada parede, cada viga, cada conexão, por mais que pareça desalinhada ou menosprezada, desempenha um papel vital em sua estabilidade. Assim somos nós. Aquela nossa teimosia, que por vezes nos incomoda, pode ser a força que nos impede de desistir de nossos sonhos. Aquela timidez, que nos faz recuar em algumas situações, pode ser a guardiã de nossa sensibilidade e da capacidade de observar o mundo com mais profundidade. A impulsividade, vista como falha, pode ser a mola propulsora para a ação e a espontaneidade que nos tiram da estagnação.
A reflexão aqui não é sobre a complacência com o que nos prejudica ou com o que impede nosso crescimento. Pelo contrário, é um convite à autoaceitação consciente. É sobre discernir entre o que realmente nos limita e o que é apenas uma característica que, embora não se encaixe em um molde idealizado, faz parte intrínseca de quem somos. É entender que a busca incessante pela “correção” pode nos levar a desmantelar partes essenciais de nossa personalidade, perdendo a riqueza e a complexidade que nos tornam únicos.
Cora Coralina, com sua sabedoria tão enraizada na experiência e na observação da vida, nos lembra que a beleza reside muitas vezes na imperfeição, na assimetria, naquilo que foge ao padrão. Nossos “defeitos” podem ser a fonte de nossa autenticidade, o ponto de partida para a empatia (pois entendemos as falhas alheias), ou até mesmo a origem de talentos inesperados. Antes de empunhar a tesoura para cortar um “defeito”, talvez seja sábio pausar e questionar: o que ele sustenta? Qual é a função secreta dessa peculiaridade em meu edifício existencial?
Permita-se ser humano, com todas as suas nuances, paradoxos e aquilo que, aos olhos do mundo (e por vezes aos seus próprios), pode parecer uma falha. A verdadeira sabedoria pode estar em integrar essas partes, compreendendo que a plenitude não vem da erradicação, mas da aceitação e da harmonização de cada tijolo que nos constrói.
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