Cleantes: o ex-boxeador que sucedeu Zenão no Estoicismo
Cleantes chegou a Atenas com quatro dracmas no bolso e virou aluno de Zenão de Cítio, sustentando os estudos ao carregar água durante a noite. Vinte anos depois, sucedeu o mestre à frente da Stoa.
Cleantes nasceu por volta de 330 a.C. em Assos, na Ásia Menor, e chegou a Atenas com uma bagagem incomum para um futuro filósofo: havia sido pugilista. A tradição antiga registra que ele desembarcou na cidade com apenas quatro dracmas no bolso.
De lutador a estudante de filosofia
Depois de abandonar o boxe, Cleantes procurou trabalho e acabou se tornando aluno de Zenão de Cítio, fundador do Estoicismo. O problema era financeiro: ele não tinha renda para se sustentar só estudando. A solução que encontrou definiu sua fama entre os antigos.
A rotina de carregar água à noite
Cleantes trabalhava durante a noite carregando água para hortas em Atenas e, de dia, assistia às aulas de Zenão na Stoa Poikile. Diógenes Laércio conta que os atenienses estranhavam como um homem sem ocupação visível conseguia se manter, e que ele precisou provar em juízo que vivia do trabalho noturno, não de algo ilícito. O tribunal ficou tão impressionado que ofereceu a ele uma quantia em dinheiro, recusada por Zenão em nome do aluno.
Os quase vinte anos ao lado do mestre
Cleantes permaneceu como discípulo de Zenão por praticamente duas décadas, período incomum de dedicação mesmo para os padrões das escolas filosóficas gregas. Quando Zenão morreu, por volta de 262 a.C., a liderança da Stoa passou a Cleantes, então já em idade avançada.
Um escolarca sem o brilho retórico do mestre
As fontes antigas são diretas: Cleantes não tinha a facilidade de expressão de Zenão nem a agilidade lógica que Crisipo demonstraria depois. Era descrito como lento para aprender, mas incansável na repetição e na disciplina de estudo. Essa persistência, mais que talento natural, é o traço mais lembrado de sua biografia.
O Hino a Zeus, seu texto mais conhecido
A obra que sobreviveu de forma mais completa é o “Hino a Zeus”, um poema que identifica a divindade suprema com a razão universal (o Logos) que governa a natureza. O texto resume em poucos versos a física estoica: tudo o que acontece segue uma ordem racional, e cabe ao ser humano aceitar essa ordem com serenidade.
O sucessor que formou
Cleantes dirigiu a Stoa por cerca de trinta anos e teve como discípulo Crisipo de Solis, que se tornaria o sistematizador mais influente da doutrina estoica. Ao contrário de Cleantes, Crisipo tinha talento lógico reconhecido já entre os contemporâneos, e coube a ele expandir e defender formalmente as ideias que Zenão havia lançado e Cleantes preservado.
Como Cleantes morreu
Segundo Diógenes Laércio, Cleantes morreu por volta de 230 a.C., já com mais de noventa anos, após um período de jejum voluntário recomendado por médicos para tratar uma inflamação na gengiva. Terminado o tratamento, ele decidiu não voltar a se alimentar, considerando que já havia vivido o suficiente.
Perguntas frequentes sobre Cleantes
Cleantes foi mesmo boxeador antes de virar filósofo?
Sim, as fontes antigas indicam que ele praticou boxe antes de chegar a Atenas e se tornar discípulo de Zenão de Cítio.
Como Cleantes se sustentava enquanto estudava filosofia?
Trabalhava à noite carregando água para hortas da cidade e usava o dia para assistir às aulas de Zenão, rotina que manteve por quase vinte anos.
Qual é a obra mais famosa de Cleantes?
O “Hino a Zeus”, poema que sobreviveu quase completo e resume a ideia estoica de que o universo é governado por uma razão divina.
Quem sucedeu Cleantes na liderança da Stoa?
Crisipo de Solis, seu discípulo, que se tornou o terceiro escolarca e o principal sistematizador da lógica e da física estoicas.
Este texto faz parte de uma série sobre os principais nomes do Estoicismo.
Equipe Mensagem de Hoje